Capítulo 5
O carro deu uma guinada brusca, e Beca achou que fosse sair voando pela janela do carona.
Depois do incidente com o moleque, eles estavam voltando na direção do carro, quando ela avistou Dario no final da rua. Ela lembra de ter dito ansiosa “É ele”, e depois a entrada no carro e a partida dos dois atrás do professorzinho do mal tinha se tornado um borrão. Emil praticamente a arrastara para dentro do carro deles, e arrancara tão rápido que tudo tinha ficado meio confuso.
Dario, sem saber que estava sendo vigiado, dirigia sem cuidado e rápido, e os dois tinham alguma dificuldade em se manter em sua cola sem dar bandeira.
De novo ela estava frustrada. A perseguição também parecia muito mais excitante nos filmes. Como se fosse de propósito, para dificultar, o ex já tinha feito duas paradas – em uma padaria, e no posto de gasolina. E de novo eles acharam que o tinham perdido.
Beca achou melhor eles desistirem. Ele nem quis ouvir, concentrado como estava. Ele jogou um ciclista para cima da calçada numa manobra, e ela sugeriu mais insistentemente que eles desistissem.
Ele ignorou solenemente.
Ela o chamou de teimoso.
- Sim, eu sou teimoso – ele bufou, dando uma guinada no carro - Como se diz teimoso, em português? – perguntou enrugando a testa.
Ela estava furiosa. Não sabia se pelo modo como ele dirigia, “um atentado a qualquer ser vivo, inclusive eu, aqui no banco do carona”, pensou, ou se pela teimosia mesmo.
- “Babaca” – ela disse rispidamente em português, sem conseguir resistir a zombar dele, e apertando os olhos numa curva fechada.
Ele saiu da curva com destreza, e olhou triunfante para o lado dela no carro, muito seguro da própria direção.
- Sim, é isso. Pode me chamar de “babaca” então.
Ela mordeu a bochecha por dentro para não rir. A tentação era muito grande. Mas ela já tinha aprendido que não era prudente fazer pouco do ego dele.
O carro deu uma freada repentina, e escapou de se enfiar debaixo do da frente por centímetros.
- “PUTAMERDA”! – ela gritou em português, quase escorando os pés contra o porta luvas.
Ele continuava segurando o volante com confiança, e acenou a cabeça, sem tirar o olhar da rua à frente. Falou meio rindo em inglês:
- Ok, agora eu tenho certeza que isso foi um palavrão.
Ele finalmente começou a ver o outro carro adiante, e se concentrou em costurar o trânsito para chegar mais e mais perto. Agora que estavam de novo na perseguição, ele se calara e estava compenetrado. Claro, os vultos dos carros passando como manchas ao lado do carro deles explicavam o porquê.
- Seu maldito yankee maluco! Você vai matar nós dois! – mas ela falou por falar, porque estava cheia de adrenalina de novo, e atenta também para não perder o outro carro de vista.
Ai, e ela que gostava tanto de andar de bicicleta, não poluir o planeta... ia acabar mais um número nas estatísticas de acidentes de trânsito...
O carro do outro finalmente parou na frente de um prédio, e Emil olhou de forma inquisitiva e esperançosa na direção dela, mas ela reconheceu o lugar e fez um muxoxo.
- É a casa dele – ela suspirou.
Eles estacionaram e permaneceram muito quietos por minutos. Ambos estavam pensando a mesma coisa, mas ninguém queria ser o primeiro a falar.
Ele disfarçou e ligou o rádio de novo, enquanto ela olhava sério e fixamente para as pessoas passando na calçada.
- Não vai funcionar assim, né? – ela ainda não olhava para ele.
- Não – ele respondeu gentilmente.
Ela suspirou de novo, e fechou de leve os olhos.
- Porque tudo isso, tanto trabalho então? – os olhos ainda fechados, mas ela não estava com raiva, a voz mostrava resignação.
Ele se virou na direção dela, e por um momento quis pegar sua mão, mas refreou o gesto no meio do caminho desengonçado. Acabou só dizendo meio seco:
- Queria tentar de alguma outra forma, já que você não queria ter contato com a pessoa de forma alguma.
Ela balançou a cabeça meio concordando, meio agradecendo.
Ela sabia o que tinha de fazer agora. Meio a contra-gosto, mas sabia. Teria de ligar para ele.
E deixar Dario entrar de novo em sua vida.
Merda.
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Capítulo 6
Beca virou pela milésima vez na cama. E dessa vez o lençol embolou debaixo dela, o que a deixou furiosa. Debateu-se, chutando-o para o chão, e resmungou para o escuro do quarto. O gato já tinha desistido de dormir com ela há horas, e dormia em cima de um travesseiro que também já tinha sido arremessado. Nem acordou com a queda do lençol.
Ela sentou, ainda no escuro, observando os contornos do quarto e pensando. De pensar ela estava ficando louca. A vontade que ela tinha era se enfiar debaixo da cama, puxar o gato para lá e ficar escondida por um mês. Ela estava se torturando com a idéia de ter de ligar para ele.
Mais cedo, quando Emil a deixou em casa, tinham combinado que ela ligaria para Dario no dia seguinte. Ele tentou orientá-la no que dizer, como fazer a abordagem, mas ela tinha achado melhor resolver isso sozinha. Seguir o instinto do momento.
Agora, com a camisola colada no corpo por causa do suor de nervoso, e sentada na própria cama desfeita, no escuro e desgrenhada, achava que deveria ter combinado um plano. Que instinto do momento que nada!
***
O telefone tocou umas quatro vezes, e entrou na secretária eletrônica. Ela torceu o fio do telefone aliviada. Claro que ela podia ter ligado direto pro celular dele, e ele atenderia. Por isso mesmo tinha escolhido ligar para casa, e em um horário em que ela imaginava que ele não estava. Para ele ter a chance de saber que ela o procurava, e retornar. Era mais fácil assim do que entrar de supetão, não?
Ou talvez fosse coisa de mulher. A verdade é que missão ou não missão, por interesse escusos ou não, ela sempre tinha achado difícil tomar a iniciativa de procurar. Será que todas as mulheres achavam isso?
Depois do sinal, ela deixou a mensagem. Achou melhor se fingir de carente. Era humilhante, mas colava. E conhecendo os instintos dele, ela achou que ele se sentiria superior o bastante para retornar.
Quando desligou, tirou a mão do telefone como se ele fosse nojento. Na verdade, mesmo sem ter falado com ele, ela já sentia como se tivesse entrado em contato com ele.
Sensação de arrepio, como aranhas se arrastando em cima de sua pele.
Ela achou melhor tomar uma ducha.
***
Emil tinha passado um dia entediante no hotel. Beca ligara para ele logo antes do almoço, avisando que tinha deixado recado para o outro. E estava indo dar aulas, e ligaria se o ex retornasse.
Final da tarde, e ela ainda não tinha ligado de novo.
Ele vira tv (inutilmente, pois não entendia quase nada), dera uma volta pelo saguão do hotel (rápida, com medo que ela ligasse e ele não estivesse. Ele tinha de arranjar um celular temporário nesse país, enquanto durasse o serviço), tinha almoçado no quarto, e agora estava pronto para esmurrar uma parede de tédio.
O engraçado é que ele estava razoavelmente acostumado com isso – esperas em quartos de hotel, campanas longas sozinho...
Mas agora parecia que ele estava angustiado.
Achou que podia esperar o telefonema na casa de Beca com ela, se ela não se incomodasse.
Uma voz lá fundo da sua cabeça o alertou para a situação inusitada, para a mudança em seu comportamento, mas ele se fez de surdo de propósito.
Ficou ligando de meia em meia hora para o apartamento dela, até que ela chegasse e concordasse que ele fosse para lá.
Saiu do hotel rapidamente, como se fosse para um encontro.
Riu da idéia.
***
Beca e Emil estavam largados no sofá pequeno dela. Ele tinha chegado há mais de uma hora, e o clima estava mais leve agora.
Primeiro ela ficou tensa, quando ele disse que viria até sua casa, porque a casa, bem, a casa não era casa. Estava mais para quitinete. Charmosa e bem cuidada, mas com estrutura ínfima.
Emil parecia um gigante, quando ela o levou para um “tour” pelo lugar.
- Bom, essa é a sala e a cozinha. E aquela portinha micra ali adiante é o quarto – riu enquanto ele dava a volta sobre si mesmo – E é basicamente isso.
Ele olhou de forma aprovadora, e elogiou o apartamento.
Ela tinha chegado há pouco das aulas, e estava com o cabelo molhado do chuveiro ainda. Sentaram no sofá (ele ocupava quase todo ele), e ela serviu um vinho com petiscos para os dois.
Ele parecia bem relaxado agora. Praticamente o mais relaxado que ela tinha visto, desde que o conhecera.
- Mais vinho? – virou a garrafa na direção dele – Imaginei que você gostava de vinho, já que a Califórnia produz tantos vinhos bons.
- Sabe que eu nunca tive tempo de conhecer os vinhedos de lá? Apesar de todo mundo falar tanto... – ele confessou.
- Sério?? Nossa, teve até filme sobre isso... “Sideways”, você viu? – ele se serviu mais um pouco também.
- Você e as referências de filmes..., é eu vi. Mas também... sabe como é, quando você mora num lugar, nunca aproveita tão bem como quem visita a turismo. Por exemplo, quantas vezes você já foi no “Jesus”? – ele perguntou curioso.
- “Jesus”? – ela repetiu, sem entender.
- É, a estátua do Jesus... – continuou ele em inglês, e ela começou a pensar que não estava entendendo alguma coisa do inglês dele.
- Aquela, que as pessoas visitam... que fica no alto.... o JESUS! – ele insistiu, como se dissesse o óbvio.
Aí ele teve um estalo.
- O Cristo??? O Cristo Redentor? – perguntou rindo.
O engraçado é que ele não se ofendeu, e sorriu.
- Isso, “Cristo” – repetiu com sotaque forte – “Christ”, certo? Jesus?
Ela riu mais.
- A gente chama de “Cristo”, “Christ” mesmo, e não de Jesus. Mas você tem razão. Eu só visitei uma vez....
E o telefone na mesinha ao lado começou a tocar.
***
- Oi, linda.
A voz do outro lado do telefone era macia, ronronante. Como a de um gato. Um tigre. Um predador.
Ela superou o choque inicial e fez sinal para Emil, indicando que era ele.
Ele automaticamente sentou mais perto dela e do telefone.
- Oi, Dario – ela respondeu cautelosa.
- O que foi? Deu saudade? – ele provocou.
Ela deu um risinho nervoso calculado (a vontade real era mandar ele se catar).
- Não falo com você há tempos... sim, deu saudade – ela tinha de engolir um bocado de orgulho para dizer essas coisas, e olhando de esguelha para Emil, amaldiçoou-o mentalmente por isso.
Ela sentiu o outro se regozijando do outro lado da linha.
- Bom, isso foi exigência sua, lembra? – ele disse de forma condescendente, mas falsamente suave.
- É, bom... as pessoas mudam de idéia – ela forçou doçura na voz.
- Eu pensei... eu queria te ver – e dizer isso foi consideravelmente mais difícil.
Ele não pareceu surpreso. Sua autoconfiança maluca esperara que ela se arrependesse. Ele não conseguia conceber a idéia de alguém resistir a ele.
Emil ouvia parte da conversa (a parte dela) e sem entender nada.
Viu ela passar do nervoso ao tenso, e por fim ela estava branca como uma vela quando desligou.
- O que foi? Como foi? O que ele disse? – ele perguntou ansioso no momento em que o fone encostou no gancho.
Ela respondeu como se estivesse entalada.
- Ele está vindo para cá.
***
Capítulo 7
Copacabana é um bairro muito eclético.
Ali tudo e todos se misturam sem distinção; os turistas no calçadão se confundem com os moradores, cansados do turbilhão e que amam aquele pedaço da cidade; senhoras e senhores circulam vagarosamente e vão à feira; crianças de rua nos sinais, carros buzinando, sol a pino, água de coco na beira d’água; obras que não param, atrapalhando o fluxo dos carrinhos de bebê que circulam nas calçadas; garotas de programa que dividem espaço e tapas com travestis. A garotada de bicicleta no meio fio, o chopp de final de tarde no barzinho, conversa cabeça, casais gays de mãos dadas, lojas finas, hotéis e joalherias, que adornam as fachadas. Madames com cãezinhos na coleira, desviando de ambulantes.
Tudo ao mesmo tempo agora, criando uma babel multicolorida e frenética.
Dentro de um dos apartamenticos, antigo e silencioso no meio dessa balbúrdia, um casal estava atarantado.
Beca e Emil se olhavam sem falar. Foi ela quem saiu do transe primeiro e se deu conta de que precisava tirar o bounty hunter de sua sala. Ela ia empurrando-o e falando ao mesmo tempo.
- É bom você estar bem longe daqui quando ele chegar.
Ele ia andando, concordando mas ainda não totalmente pronto para sair.
- Você sabe o que precisa fazer? – ele lembrou, se desvencilhando dela antes da porta. O ar abafado que vinha do corredor não o convidava a sair.
- Preciso perguntar sobre o tal fulano – ela continuava a puxá-lo pela camisa. A única coisa que conseguia se concentrar no momento é que Dario estava vindo, e não deveria encontrar Emil espalhado no sofá, pelamor! O resto nem passava em sua mente por enquanto.
Emil driblou a mulher, e voltando para o meio da sala, avisou:
- Não vá perguntar sobre ele direto! O ideal é que vocês conversem por um tempo, e você peça para voltar às reuniões – ele a olhava esperançoso – se você puder ir a uma reunião, vai poder identificar positivamente o sr. Carlson... e só. Acabou o seu trabalho!
Ela achou que podia lidar com isso. Duro era voltar a ter contato com o outro, sem ter CONTATO. Mas achou que podia fingir que estava interessada, pedir pra ir a uma reunião... e se tivesse sorte pararia por aí.
O californiano olhou com desagrado para a sala diminuta e acolhedora e depois para a própria Beca, que usava uma calça jeans simples e uma camiseta de alcinha. Ela sentiu-se nua com o olhar dele.
- O que foi? – perguntou olhando para si mesma de cima, e abrindo os braços.
- Acho que não foi uma boa idéia marcar aqui. Você deveria ter marcado num lugar neutro e público. Se o seu objetivo é que ele não comece a ter idéias....
Ela ficou sem jeito e arrumou a alça da camiseta. Mas respondeu com sarcasmo.
- Ah, sim, e você agora é especialista no meu ex?? Como se fosse a coisa mais fácil do mundo ir contra uma imposição dele – ela riu de nervoso, e colocou um pouco de cabelo para trás da orelha – Quando ele diz “estou indo”, é isso e acabou. A não ser que eu engrosse – abriu mais ainda o sorriso de forma charmosa – e não queremos isso, certo?
- Certo – ele ruminou entre dentes. E como ela continuasse parada no mesmo lugar, fazendo menção para que ele saísse, se resignou e começou a ir em direção à porta.
Beca, apesar do nervoso, estava com ânimo revigorado – começara a encarar a coisa toda como uma missão de detetives. E isso era excitante, quebrava a rotina. Explicou a ele que estava confiante em enganar o outro, e que começava a se sentir como uma investigadora. Mas Emil fez um muxoxo, e a alertou que na vida real as coisas nem sempre corriam fácil assim.
Ele já estava no corredor agora, mas ainda adiava a ida. Parecia mastigar uma idéia.
- E se eu ficasse escondido no quarto? – arriscou.
- Nem pensar! Vai que ele descobre, por qualquer motivo, Deus me livre! – ela balançou a cabeça em negativa – E por que você ficaria? Você deve ter alguma outra coisa pra resolver no hotel, com a sua empresa...
Era verdade. Ele tinha de fazer contato com a agência, informar como estava indo a coisa aqui no Brasil, ligar pro filho, para a mulher que cuidava de sua casa, ver se estava tudo bem...
Mas alguma coisa dentro dele não queria ir. Não sabia se tinha ficado impressionado com o pavor que ela tinha do ex, e agora achava que devia ficar de olho nela, ou o quê.
Pediu a ela que telefonasse quando o outro fosse embora, para informar o que tinha conseguido, e avisou-a que ela não tinha obrigação nenhuma de levar o fingimento longe demais. Não precisava se envolver demais com o cara. Só retomar o relacionamento alegando “amizade”. Era só insinuar que queria alguma coisa mais, que ele tinha certeza que já funcionaria.
Ela achou engraçada a recomendação, e informou que não tinha mesmo nenhuma intenção de levar o fingimento longe demais. E que se o negócio ficasse pesado, que ela cairia fora imediatamente.
Ela pegou o elevador e desceu.
Beca começou a dar uma ordem na sala, depois pensou na besteira da coisa e parou. Quem ela queria impressionar afinal? Dario? Pff. Que a sala ficasse como estava.
Mas se olhou de soslaio no espelho no banheiro, e talvez por influência do olhar do Bounty Hunter, resolveu trocar de roupa.
Vinte minutos depois, Dario chegou à portaria do prédio e subiu.
Dois minutos depois, Emil subiu atrás dele sem que ele visse.
***