Capítulo 1.
Segunda-feira é um dia ruim para quase qualquer um. Mais ainda se é o dia da semana em que você dá aulas sem parar. Pelo menos essa aula das oito da noite era só para velhinhos. Ou melhor, terceira idade, corrigiu mentalmente. Bom, fosse como fosse, nessa ela já não forçava tanto os músculos.
Da posição de yoga em que ela estava (“o guerreiro”), reparou na janela de vidro no canto oposto da sala.
Não que fosse incomum ter gente observando sua aula; o que era incomum era o tipo de pessoa que estava ali.
Ela mudou para a posição da “árvore”, e avisou ao pessoal.
- Muito bem, Nete, não esqueça de respirar – incentivou apressadamente à senhora que estava sentada quase ao lado dela, e que estava tentando fazer a posição tão concentradamente, que era óbvio que não estava respirando. A aluna obedientemente exalou.
Beca se sentou em seu tapete, alongando. Seu corpo magricela e aparentemente desengonçado (mas firme), marcava por baixo da malha de algodão macia da calça de ioga.
Ela olhou de novo de esguelha para a janela.
Ele era jovem. Quer dizer, era jovem para o seu público alvo, porque mesmo dali de onde estava, percebia que ele era bem mais velho do que ela. Possivelmente uns quarenta anos. Ei, ela pensou sorrindo em pensamento, atualmente, qualquer oportunidade de encontrar com alguém com menos de sessenta, estava valendo à pena.
O relógio que ficava em uma das paredes ainda não tinha chegado EXATAMENTE às oito, mas, caramba, era segunda, a última aula do dia, e não havia nada de mal em trapacear uns minutinhos no horário, pensou cansada. Começou o processo de finalização de aula, apagando as luzes, e comandando o relaxamento em voz baixa. Era tudo tão automático que já nem se dava conta.
Ela estava aproveitando a penumbra para observar melhor sua “platéia” por trás do vidro. Não sabia bem porque, mas de repente ficou desconfortável com aquele homem parado ali. Ele não olhava para nenhum dos alunos (como faria, se fosse algum filho esperando a mãe, ou coisa assim); olhava direto para ela. E não era um olhar simpático.
***
Se mau-humor fosse contagioso, Emil estaria de quarentena agora. Seu vôo tinha chegado ao Brasil pela manhã, mas ele ainda sofria com o jetlag. Havia, o quê, uns 10 anos que não deixava o país? Ainda mais para tão longe. E ele detestava aviões. Nada da neurose americana com terroristas, que ele desprezava em seus conterrâneos – o que o fazia suar frio era tirar os pés do chão firme.
Como estava fora de cogitação embarcar completamente bêbado (o que teria sido sua primeira opção, para não pensar na decolagem), por causa das rigorosas normas de embarque, só tinha lhe restado um tranqüilizante leve (mesma coisa que nada, pensou aborrecido, apertando a têmpora direita, que irradiava dor). Então, a chegada e a ida ao hotel, e a busca pela localização exata da pessoa eram lembranças meio embaçadas. Confusas.
Ele agora curtia um gosto meio metálico na boca. “Ótimo”, pensou com sarcasmo, “ressaca sem álcool.”. Agora, naquele shopping desconhecido, daquele bairro desconhecido, num país também desconhecido, ele estava puto.
Puto da vida de ter aceitado esse trabalho. Não que houvesse muita alternativa para começar, lembrou a contragosto. Mas hoje ele deveria ter ficado dormindo. Pedido serviço de quarto.
Nããão; TINHA que ter procurado a mulher no mesmo dia, não é, sua mula velha? Maldita neurose!
Ele se aproximou mais do vidro. Ninguém confundiria Emil por um brasileiro. Não que ele estivesse usando meias longas e tênis com bermudas, ou alguma coisa tão óbvia. Mas sua compleição era tipicamente norte-americana. Alto, largo, com traços finos e cabelo queimado do sol da Califórnia.
A única coisa que destoava do conjunto, era a falta dos costumeiros olhos azuis (os seus eram cor de caramelo), e da cor da pele, não tão rosada como seria normal. O sangue mexicano da sua mãe aparecia aqui e ali, e ele tinha um belo bronzeado dourado.
O vôo o tinha derrubado mesmo – ele não tinha planejado bem o próximo movimento, ou como abordar a mulher, coisa fora do seu normal. Inferno! Ele contava que as pessoas nesse país falassem razoavelmente inglês, mas ao longo do dia tinha percebido que não era bem assim.
Se essa mulherzinha não falasse patavinas do seu idioma, ele teria um graaande trabalho, só para começar. Talvez fosse uma boa idéia comprar um dicionário de português no dia seguinte, anotou mentalmente, aborrecido de não ter tido a idéia antes.
A aula acabou, e os alunos começaram a sair. Ele esperou pacientemente enquanto a sala esvaziava, e quando a professora estava sozinha, já guardando os equipamentos, ele resolveu que era hora de entrar.
Forçou-se um sorriso ameno, para suavizar a situação.
***
“Ok, ISSO foi assustador”, Beca pensou quando viu o homem vindo em sua direção. A cara dele continuava amarrada, mas agora ele tinha um sorriso duro. “Amigo, não sorria”, zombou mentalmente parando de enrolar os tapetes da aula. Era óbvio que ele vinha falar com ela, e ela achou por bem não adiar mais, e foi na direção dele.
Ele pareceu hesitar um segundo antes de abrir a boca, e ela imediatamente entendeu o porquê, quando ele falou inseguro:
- “Speak english”?
“Não desde o segundo grau!”, uma voz gritou na sua cabeça.
- Hummm, um pouco. Posso ajudar? – ela falou, também em inglês e devagar, se aproximando mais dele.
Então ele pareceu genuinamente relaxar, e ela achou que ele ficava melhor assim. Muito menos assustador. “Claro que ele não é assustador, sua tonta”, se repreendeu mentalmente, “Você provavelmente está estranhando o comportamento dele, porque ele é estrangeiro”, e pensando assim, sentiu-se um pouco constrangida. Beca se esforçava para não ser paranóica.
- Ah, isso é bom. Você é a senhora Rosenbaum? – Emil suspirou em inglês, e estendeu a mão. Esperava que aqui também se apertassem as mãos, e não fosse alguma gafe, como xingar alguém ou coisa assim. Droga! Ele REALMENTE deveria ter perdido um tempo pesquisando melhor esse país...
- Rebeca. Só Rebeca. – ela estendeu a mão e apertou, para segundo alívio dele. Ela se impressionou com a palma grossa e seca da mão dele. E os dois continuaram o diálogo na língua dele. Ela falando pausadamente e de forma cuidadosa.
- Senhora Rebeca – ele estendeu um cartão para ela – Meu nome é Emilio, e eu sou investigador.
O que era uma meia verdade, Emil lembrou enquanto observava a mulher mais detalhadamente. Muito diferente das professoras de yoga saradas que ele estava acostumado a ver em San Diego. Essa Rebeca era esguia como uma bailarina. E com pouco busto, observou discretamente, o que também era uma surpresa. De repente sua mente divagou sobre como ele não lembrava a última vez que tinha visto uma mulher sem um “boob job” (AKA, peito de silicone).
Beca também estava tendo um momento de reflexão, mas em relação ao nome dele. Não conseguiu evitar a zombaria mental “Emilio? EMILIO???? O que houve com o Ken? Com o Bob? Com o Ryan??? O primeiro americano que eu conheço, e o cara se chama Emilio?! Que broxante...”. Mas ela empurrou firmemente o pensamento para o fundo da cabeça.
Ele continuou.
- Podemos conversar em algum lugar?
Alarmes mentais! No final das contas ela ERA paranóica, meu bem. De repente ela achou aquela situação todo meio estranha – um americano, às oito da noite, numa academia de shopping querendo falar com ela? E o cara era investigador? Quais as chances? O que ele poderia querer com ela? E ela achou mais seguro saber mais dele, enquanto ainda estava dentro do alcance do segurança da academia.
- Podemos. Mas sobre o que se trata? – e ela voltou a guardar suas coisas.
Ele não queria explicar a situação toda ali, em pé. Não por educação – é que seu corpo estava gritando de cansaço mesmo!
Então ele pensou em como resumir o negócio, de forma que ela resolvesse ouvi-lo com atenção.
- O suspeito que eu estou investigando, estava aguardando julgamento sob fiança na Califórnia. Minha agência acredita que ele tenha fugido aqui para o Brasil – foi o melhor que ele conseguiu.
Ela refez automaticamente o rabo de cavalo, e colocando sua mochila nas costas, pronta para ir, perguntou:
- Sim, e o que eu tenho a ver com isso?
Ela achou que ele parecia cansado; pequenas rugas de expressão se apertavam no canto dos olhos. Ele suspirou.
- Acontece, que um dos crimes que ele está respondendo é sobre prática ilegal de wicca. Eu estou certo em afirmar que você é wiccan, verdade?
Ela empalideceu. Essa era uma daquelas lembranças que ela preferia enterrar no arquivo das "cagadas memoráveis".
- Eu não tenho mais nada a ver com isso – e deu de ombros - E eles não chamam de “wiccan” aqui no Brasil...
- E como é que chamam? , ele perguntou genuinamente curioso.
Ela riu de lado.
- Ah, de bruxa– e piscando um olho pra ele – ou de maluca mesmo.
***
Capítulo 2.
A noite estava bem fresca, e em frente ao shopping da academia de Beca havia uma rua só de barzinhos. Ela tinha concordado em conversar com o “investigador”, mas achou melhor um lugar bem público.
Ela estava meio desgostosa de sentar em qualquer lugar que fosse de roupa de ginástica e rabo de cavalo amarfanhado, mas... é o tipo de coisa que não dá para prevenir e ter uma roupa de estepe na mochila. Normalmente ela ia andando três quarteirões para casa, logo depois de dar aula, então não se importava muito com a aparência nesse momento.
Diferente de Emil, que estava bem apresentável de calças cáqui e camisa pólo. Ela achou que o garçom tinha olhado de esguelha para a roupa e o tênis dela, mas podia ser pura neurose. Mesmo assim ela alisou quase inconscientemente a camiseta.
Depois que eles sentaram, ele começou a explicar melhor a questão da investigação. Pelo que ela entendeu, ele não era bem um investigador. Nem da polícia. Na verdade a palavra que ele usou foi “bounty hunter”, e ela precisou de um esforço mental pra vasculhar na mente o significado da palavra – caçador de recompensas, a grosso modo.
Ela não conteve a surpresa:
- Como naquele filme da Domino, da Keira Knightley?? – ela estava achando divertido, embora custasse a acreditar que a história fosse verdade. Dava para ver na expressão de enfado dele, que ele não achava nada engraçado a comparação com o filme.
- Mais ou menos. Filme é filme. Na verdade bounty hunter é uma profissão bem regulamentada na Califórnia, e precisa de licença... não é como se eu fosse um justiceiro nem nada – justificou, fazendo sinal pro garçom.
Ele interrompeu o que estava falando, e pegou o cardápio. O garçom parou ao lado da mesa aguardando, desatento. Ele falou baixinho:
- Qual a cerveja que tem aqui? – sussurrou.
- Humm, acho que nenhuma que você conheça... pelo menos nenhuma americana – ela afirmou dando uma olhadela rápida na parte de bebidas.
- Corona? Coors? – ele esperançoso, ainda em tom baixo.
- Nop.
Ela percebeu instantaneamente que ele não estava nada à vontade em depender dela. Raios! Queria o quê, vindo ao país sem falar português?? Mas Beca era a miss-jogo-de-cintura, e pediu um chopp para ele.
Ele continuou.
- Essa pessoa que eu estou procurando já tinha sido presa, e saiu da prisão sob fiança enquanto aguardava julgamento – explicou bocejando. Não conseguia evitar – Só que ele se aproveitou disso, e saiu do país.
- E você veio até aqui prender ele? – ela perguntou – E eu conheço ele? Como é que eu entro na história?
- Eu não vim prender. Como não sou policial, isso seria contra a lei. Vim localizar ele, para depois entregar o caso à polícia – esclareceu - O Sr. Carlson andou fazendo umas coisas bem ilegais usando a desculpa da wicca – ele parecia contrariado.
Mesmo sendo progressivamente derrubado pelo cansaço, Emil ainda conseguia analisar bem as pessoas. Ele via que ela estava fazendo um esforço mental pra encaixar os fatos. Os olhos brilhantes se apertando ligeiramente, o nariz levemente franzido. Ele tinha de admitir que ela não era em absoluto o que ele esperara. A verdade é que ele não simpatizava com wicca e seus seguidores. Já tinha encontrado alguns bem alienados pelo caminho. Então tinha esperado uma pessoa com ar mais aéreo e místico, mais exótico. Ou então uma sedutora mulher voluptuosa, como ele meio que imaginava que as brasileiras fossem.
Mas a mulher com ar de garota sentada à sua gente, não era nada disso. Ela não fazia muito seu tipo, assim tão mignon, mas tinha um ar divertido e inteligente. E o cabelo chocolate, não muito comprido, parecia sedoso mesmo preso.
Ela interrompeu seu pensamento.
- Sim, e aí você veio procurar por ele, e fez o quê? Jogou “wicca” no Google e apareceu meu nome? – brincou sarcástica.
- O meu escritório descobriu que ele talvez ande freqüentando um grupo de wicca aqui no Brasil... como se chama? Coven?
Ela assentiu com a cabeça. Esse era um dos nomes que os grupos podiam utilizar.
- Foi difícil conseguir informações sobre esse... coven. Parece que eles são bastante reservados...
E então ela entendeu. O reconhecimento atingiu-a como um raio, e seu corpo todo retesou imediatamente.
- Não – disse simplesmente.
Claro, não sabia como não tinha entendido tudo antes.
Beca era uma pessoa zen; dava aulas de yoga, era vegetariana e sempre se interessou por wicca. A coisa da energia, da natureza... tudo isso tinha muito a ver com ela. E foi assim que ela tinha conhecido Dario.
Numa livraria, num evento de autógrafos de um escritor de livros de wicca. Os dois estavam na fila, e ela não tinha nem conseguido mais prestar atenção ao autor, depois de começar a conversar com ele. Ele era brilhante, o rosto vivaz irradiava energia, quase uma força da natureza, impossível de ser ignorado ali naquele pequeno espaço. Dario entendia bastante de wicca, e praticava, e apesar de se mostrar um quê arrogante, era um excelente orador e sua paixão pelo assunto era atraente. Ah, sim, e ele era atraente de outras formas também; atlético e com olhos penetrantes muito claros. Tinham saído da livraria para tomar um café, e não se desgrudaram nos seis meses seguintes.
Quando os problemas começaram a surgir.
Primeiro os pessoais. O namoro dos dois começou a dar sinais de desgaste logo cedo. Dario se mostrou aos poucos um poço de egocentrismo, controlador e manipulador. E sujeito a rompantes de agressividade. Ela começou a se cansar de aturar seu comportamento quando era contrariado, e suas explosões. E com o passar dos meses, o assunto wicca entre eles deixou de ser saudável, e virou uma completa obsessão para ele. Ela começou a não concordar com diversos de seus pontos de vista.
Ele montou um grupo de estudos, que depois chamou de coven (ele tinha esses delírios de grandeza), e do qual se intitulou dono, mentor, chefe e tudo mais que se possa imaginar. Ela foi a 3 reuniões e desistiu, ao descobrir que os “membros” eram pessoas quase tão obcecadas pelo assunto quanto o próprio Dario e nenhum deles tinha uma visão positiva ou correta da wicca; eles distorciam tudo.
Ela fazia piada com ele, dizendo que o grupo acabaria “do lado negro da força”, o que afinal acabou de verdade acontecendo. Eles começaram a usar métodos bastante condenáveis. E ela não quis mais se envolver. Mas era difícil deixá-lo, como se ele tivesse algum tipo de gravidade à qual ela estivesse presa. Eles terminaram e voltaram inúmeras vezes. E a última briga deles terminou mal. Mal no sentido violento da coisa.
Ela nunca mais tinha visto ele, apesar da procura insistente da parte dele. Mas ela ouvia boatos aqui e ali de que o grupo andava cada vez mais sigiloso. Começaram a surgir também boatos que ela preferia ignorar, porque simplesmente arrepiavam seus cabelos. Ela não queria mais nada com ele, nem com aquela gente.
Esse namoro tinha sido a coisa mais imbecil e vergonhosa que ela tinha feito nos últimos tempos.
O chopp chegou, e ele tomou metade do copo de dois goles. Imediatamente sentiu seus dedos formigando. “Ôou”, percebeu que a mistura não tinha sido uma boa idéia.
Ele recostou na cadeira, disposto a explicar o que desejava dela.
- Rebeca, eu só preciso que você faça contato com ele. Eu preciso saber das reuniões... horários, locais..... e se o sr. Carlson está REALMENTE participando delas. Só isso. Depois que eu tiver uma confirmação de localização positiva, o negócio sai das minhas mãos.
Ela se enervou.
- Ah, tá. Só que isso vai implicar em fazer algum tipo de contato com aquele MALUCO - ela balançava a delicada cabeça negativamente enquanto falava - Estou fora.
Emil fechou os olhos um segundo, mas não de exasperação. Ele achou que fosse apagar ali mesmo. Desde que tinha aceitado esse trabalho, tinha agido como um perfeito idiota. E nada profissional. Agora estava se perguntando como iria fazer pra dirigir o carro alugado até o hotel; com certeza esse país deveria ter leis contra motoristas chapados.
- Meu escritório recebe por esse tipo de serviço. É claro que a sua ajuda vai ser remunerada. Você ganharia uma percentagem da recompensa – ele continuava zonzo, mas se concentrando – A ajuda não atrapalharia em nada sua vida. Eu agiria de acordo com a sua conveniência...
- Você não está entendendo – ela continuava categórica – o cara é PERIGOSO. Eu passei maus bocados pra me livrar dele. Não tenho a menor intenção de ficar remotamente perto dele de novo.
Emil se sentia cada vez pior, mas nunca tinha esperado uma recusa. Ele tinha certeza que quando oferecesse pagamento pela ajuda, ela concordaria de boa vontade. Normalmente era assim que funcionava. Seu mal estar não contribuía em nada com seu humor.
- Escuta, eu não estou muito acostumado a convencer as pessoas a nada – e pelo tom dele, ela percebeu que ele falava sério – Geralmente ou elas fazem o que eu quero, ou fazem o que eu quero. De um jeito ou de outro.
E havia um quase nada de ameaça na voz dele.
Ora, ora. Agora, essa era boa! O problema aqui é que eles NÃO estavam num filme americano, onde as pessoas saem intimidando e explodindo tudo, sem conseqüências. “Isso aqui é outro país, meu caro”, pensou desafiadora. E cruzou os braços fechando a cara, disposta a mostrar direitinho a ele as diferenças culturais entre os dois.
Ele não pôde evitar ficar um pouco surpreso. Muita petulância dessa mulherzinha franzina, de peitar ele!
- O caso é – ele resolveu mudar um pouco a tática – que se forem abrir uma investigação criminal, você vai ser chamada para depor, de qualquer forma, e vai ter um trabalhão.
Ela percebeu que ele estava tentando ser razoável, e relaxou um pouco a postura. Era mesmo exaustivo ficar amarrando a cara, já que esse não era o seu normal. O que diriam seus alunos, se a vissem assim??
- Se você participar, o negócio vai andar rápido - disse fechando os olhos e cabeceando.
Ela percebeu.
- Tudo bem? Você está se sentindo bem? – ela ficou preocupada.
Os olhos dele se apertavam com força, mostrando pequenas rugas de expressão nos cantos. Mesmo com entradas quase imperceptíveis nos cabelos, ele tinha boa aparência. Não que fosse o tipo dela, pensou. Muito bruto.
Ele demorou um pouco para decodificar sua pergunta.
- Hum... bem, na verdade, não. Acho melhor eu voltar ao hotel agora. Podemos conversar melhor... amanhã – balbuciou e apoiou a cabeça nas mãos.
Não deixava de ser engraçado ver um homem de aparência tão dura, assim abatido.
Ele ficou quieto um segundo, e depois chegou à conclusão.
- Será que você poderia me ajudar...? Eu não sei se consigo chegar até o carro....
A vontade de Beca era aproveitar e sair correndo.
Mas o que ela podia fazer, se tinha um maldito complexo de Madre Teresa de Calcutá??!
Suspirou e ajudou-o a levantar.
***
Capítulo 3
Na terceira vez que o telefone tocou, ela finalmente abriu os olhos.
Desorientada, no escuro do quarto, ela demorou a entender que estava em sua própria cama. Tinha tido um daqueles sonhos terríveis. Altares e sacrifícios. Brrr!
Há tempos não tinha esses pesadelos com bruxaria, pensou virando na cama e esticado a mão para alcançar o Gato. Ele ronronou e ofereceu a barriga amarela para ela.
A chamada entrou na secretária eletrônica, e ela de repente teve flashes da noite anterior – saindo do bar com o bounty hunter, tentando dirigir o carro alugado dele (ela não tinha carteira, mal sabia dirigir, e a ida até o hotel levou umas 500 horas), depois a luta pra arrancar dele o número do quarto, o esforço de apoiar o corpo largado dele contra o seu...
Sem falar na vergonha de encarar os funcionários do pequeno hotel, que a olhavam com curiosidade.
Suspirou. Coçou mais ainda a barriga do Gato, e deu uma palmadinha para ele sair da cama. Ele estava ficando muito gordo, de tanto comer e dormir.
Ele resmungou, mas desceu da cama. Beca aproveitou para se espreguiçar entre os lençóis e fazer um pequeno alongamento.
Ela costumava ser uma pessoa bem matutina, mas olhando o celular viu que já eram quase 10 da manhã. O pequeno loft onde morava era perfeito para uma pessoa. E seu gato, claro. Quarto, sala e cozinha integrados de forma charmosa. Era bem localizado, ficava a poucos quarteirões de tudo que ela pudesse precisar, e tinha a melhor vizinhança possível, pelo menos para ela. Como o diminuto apartamento tinha sido herança da avó, o prédio era quase que exclusivamente ocupado por pessoas mais velhas. Foi assim que ela se especializara em aulas para a terceira idade.
Ela se levantou, foi até seu canto de meditação e acendeu um incenso, parando para respirar um minuto, e depois sondou os armários claros da cozinha atrás de comida para o Gato. Quando começou a preparar seu chá, percebeu que a luz na secretária eletrônica ainda piscava.
***
Emil desligou o telefone e voltou pra enorme cama de hotel, se afundando. Ele tinha ficado positivamente surpreso ao descobrir que um hotel tão simples pudesse oferecer acomodações tão confortáveis.
Pelo visto o Rio de Janeiro era mesmo a cidade dos turistas, independente do que andasse aparecendo na mídia.
Ele se sentia 100% novo. Outra pessoa. Nem entendia direito tudo que tinha feito no dia anterior. Sem falar que quando acordou demorou uns momentos para lembrar precisamente como tinha chegado ali.
Claro. A mulher. A professora de yoga. Rebeca.
Passou a mão no rosto já sentindo um nada da barba clara começar a aparecer e pinicar. Ela podia ter largado ele no bar. Afinal, eles nunca tinham se visto, e ele não tinha sido exatamente gentil com ela. Uma pontada de remorso cutucou sua mente.
Ligou pra recepção pedindo serviço de quarto. Depois foi até a varanda espiar a cidade. De certa forma era parecida com a sua cidade – gente, barulho, sol. Emil ligou a tv (inutilmente; percebeu depois de minutos sem achar nenhum jornal em inglês), e começou a revirar as malas.
Quando ligou pra ela antes, e deixou recado na secretária eletrônica, estava decidido a tentar a aproximação com seu alvo de forma diferente: talvez Rebeca não precisasse se envolver com o ex.
Se ela estivesse disposta a apontar o cara, para que ele soubesse quem era, ele poderia tentar descobrir sozinho informações do grupo, seguindo-o.
Ele estava um pouco embaraçado de ter tomado essa decisão, porque do ponto de vista do seu trabalho não era o mais rápido e prático. E o que não era rápido custava dinheiro, e não era bom para os negócios.
Mas ele não conseguia afastar dos pensamentos o incômodo de ver a garota tão assustada ante a possibilidade de encontrar o bruxo. Por que ele se importava, bolas?, irritou-se.
Mas ele se convenceu que se sentia estranhamente em dívida com ela pela gentileza da noite anterior. Deveria ser isso.
***
Beca ouviu a mensagem embaraçada agradecendo pelos préstimos na desastrada noite anterior. A voz gravada na secretária ficava meio distorcida, meio metálica.
Mas mesmo com estática ela percebia uma mudança no tom: ele perguntava se ela PODERIA encontrar com ele mais tarde, se estava TUDO BEM de ser na lanchonete tal (que era a única que ele conhecia por ser ao lado do hotel), e se não iria ATRAPALHAR que eles fizessem uma coisa investigativa hoje.
“Curioso”, pensou.
E o recado finalizou com ele dizendo que tinha uma idéia de como ela não precisaria falar com Dario, para ajudar na investigação.
Excelente! Menos uma coisa.
Sim, porque ela de certa forma já tinha se resignado a ajudar. Não por causa do dinheiro (que, oras, seria bem vindo), mas porque afinal o cara que ele estava perseguindo era um fugitivo da lei.
Ela revirou os olhos para si mesma. Sempre em busca da canonização....
Chato que hoje era seu day off! O dia que ela tirava para lavar roupa, cuidar do Gato, ir a banco... e relaxar.
- Gato! Gatinho, gatinho.... – chamou sentando no sofá confortável. Claro, o nome do gato era “Gato”. Ela não via o menor sentido em colocar nome num bicho que simplesmente não respondia quando era chamado. Tanto que o bichano só se manifestou depois que ela começou a fazer ruídos tipo “pssss!”.
O gatão amarelo e rajado era quase do tamanho de um cachorro, mas nada Garfield no jeito de ser. Ele era amoroso e brincalhão. A única coisa em comum com o famoso gato das tirinhas era o apetite – Gato era guloso. E nada vegetariano, para tristeza da dona!
- Gatinho, vou sair hoje. Você vai ficar bem sozinho a tarde toda? – se sua avó a ouvisse conversando com o gato, teria mandado interná-la. A avó era muito enérgica e lúcida. Mas Rebeca gostava muito de conversar com o felino, às vezes mais do que com pessoas.
O animal continuou se enroscando nela, sem nem dar bola para a conversa.
***
Os dois se encontraram já dentro do restaurante. Quando ela chegou, ele estava lutando com o cardápio de novo. Ela sorriu de leve – um padrão se formando?
Mas ele pareceu satisfeito quando ela chegou dessa vez.
Ele quase não a reconheceu de jeans e blusinha. E ficou realmente preocupado com a idade dela; ele sabia pela pesquisa que ela estava na casa dos vinte, mas hoje ela passaria fácil por adolescente. Ele ficou muito mal consciente dos seus quase quarenta e ficou se achando um velho perto dela.
Ele explicou a idéia de seguir Dario, ao invés dela fazer contato com ele, e ela aceitou de imediato (embora não fizesse idéia de como fosse funcionar o negócio). Eles sairiam direto dali para a porta de onde o ex trabalhava (ele era professor universitário), e esperariam ele sair. Ela apontaria para Emil o alvo, e pronto! Sua participação na história estava terminada.
Simples.
Emil levantou da sua cadeira, e para surpresa de Beca, sentou a seu lado.
Mostrou o menu a ela perguntando:
- O que dessas coisas significa “steak”? – ele se debruçou para o lado dela, para que ela tivesse uma visão melhor das letras.
Ela ficou um pouco incomodada com a proximidade, mas respondeu.
- “Filé”. Mas eu posso pedir para você... Emilio, não é? Emilio não é um nome muito americano.... – ela começou lembrando do fato.
Para sua surpresa, ele sorriu. Não aquele sorriso arrepiante da noite anterior na academia. Um sorriso espontâneo, e tão rápido, que sumiu quase ao mesmo tempo que apareceu. Mas que mostrou uma leve covinha num dos cantos do lábio.
- Minha mãe é mexicana. Mas todos me chamam de Emil. Não é muito incomum na Califórnia – explicou.
- Hummm, espanhol não é absurdamente diferente de português... como pode você não entender absolutamente nada aqui? – ela continuou, abaixando o cardápio.
E ele estava de volta. O cara durão. Com a expressão fechada, ele levantou e voltou para a cadeira na frente dela.
- Eu não fui criado pela minha mãe – e o tom dele dizia “eu não quero falar sobre isso”. Ele devolveu a pergunta, numa tentativa de mudar o foco.
- Falando em nomes... Rebeca Rosenbaum? Não sei aqui no Brasil, mas isso me parece um nome judeu.
E ela ficou tão embaraçada quanto ele. Se fosse dada a ficar vermelha, teria virado um tomate imediatamente. Ela só concordou com a cabeça.
- Uma judia bruxa?! Como pode isso??? – ele não estava sendo cruel nem nada, só tentando decifrar ela.
Ela apelou para o humor.
- Digamos que eu seja a ovelha negra da família.
Os dois ficaram em silêncio uns momentos, observando o movimento do lugar, e a comida chegou.
Ele deu uma dentada de tubarão no sanduíche de filé, e ela enrugou o nariz com nojinho. Ele achou graça.
- Que foi? Tá com nojo de comida? "Shame on you"....
- Você já pensou que isso já foi um animal? – ela se empertigou.
Ele lambeu os lábios grossos, engordurados com o suco da carne.
- Hum... animalzinho delicioso esse...
Ela olhava incrédula para ele. Colocou o cabelo para trás da orelha. Ele tinha percebido que era um tique. Ela tinha colocado o cabelo bastante atrás da orelha ontem. Mesmo com ele preso. Ele se fez de sério.
- E você? Não tem pena dessa salada, não?
- Como?!! – ela engasgou.
Ele se divertiu com a indignação dela.
- Já pensou que ela era uma plantinha linda? Que tinha raiz, uma família na floresta, que estava viva... ? – ele continuou com falso olhar de desaprovação.
Ela o encarava do outro lado da mesa como se ele fosse louco.
Depois, percebeu a provocação, e relaxou. O bom nela era isso; ela não conseguia se aborrecer a sério por muito tempo.
Ele terminou o sanduíche, e limpando a boca com o guardanapo, balançou a cabeça de um lado para o outro, se fazendo de resignado.
- Sua selvagem.
Os dois riram. E ela se espantou de descobrir que ele tinha humor também.
***
Capítulo 4
“Então isso é o que eles chamam de ficar de campana?”, pensou Beca com decepção.
Quando ele propusera vigiar a saída do trabalho do “outro”, ela tinha imaginado uma coisa completamente diferente. Afinal, ela era fruto de uma geração que ia ao cinema!
Mas ficar sentada por horas dentro do carro, ouvindo música e comendo porcarias, bem à vista de todos, não era nada empolgante. Nada de óculos de visão noturna? Nada de disfarces?
Ela suspirou. Emil estava abrindo o seu quinto pacote de salgadinho. Ela achou que ele deveria ser um poço sem fundo (eles já tinham comido), e que deveria malhar pra se manter magro, apesar da “péssima” alimentação.
Ele vasculhou o saco de compras que estava em seu colo, e estendeu para ela umas barras de cereal. Beca ficou completamente estupefata.
- Eu imaginei que você só comia esse tipo de coisa... alpiste – disse com um sorriso maroto.
Ela aceitou, ainda surpresa. Estava começando a duvidar da sua capacidade “bruxa” em avaliar uma pessoa à primeira vista....
Emil ficou satisfeito. Ele ainda estava tentando se redimir com ela, pelo vexame do dia anterior. E pelo visto, tinha marcado ponto.
- Você sabe o horário da saída dele? – Emil perguntou mudando o assunto. Como ele não conhecia Dario, sua parte na vigilância era mínima, e ele estava relaxado. Ele esperaria ela apontar o cara.
- Nem faço idéia. Acredito que depende do dia.... – e depois mais pra si mesma do que para ele - ... só espero que ele não resolva dar aula até as 10 da noite hoje....
E assim foi. Passou-se uma hora. Duas horas. E nada.
O rádio foi desligado, depois de um tempo. Os dois acabaram fazendo quase uma sessão de terapia: ela perguntando sobre a vida na Califórnia e sobre a profissão dele, e ele querendo saber mais sobre os hábitos dela, e sua filosofia de vida.
Ele contou como a mãe tinha voltado ao México, e que ele quase não a via, e que tinha sido criado pelo pai, e como ele tinha sido incrível. Ela contou das decepções de ter feito faculdade na área de saúde, e como ela se sentia incapaz de ajudar realmente as pessoas, e como tinha procurado a yoga, como resposta.
Ele confessou que era divorciado há anos, e como vivia praticamente sozinho, depois que a esposa levou o filho embora. E que o menino tinha sete anos, e que ele estava começando a ensiná-lo a surfar.
Ela explicou que era a filha caçula de uma família enorme, e que só se dava com a avó, porque seus parentes eram muito tradicionalistas, e não aceitavam o estilo de vida que ela tinha adotado. Que se fosse pela família dela, ela já estaria casada, com cinco filhos e indo à sinagoga regularmente.
Ele implicou com ela, chamando-a que maluquinha esquisita. Ela revidou, chamando ele de ogro. E eles riram.
E descobriram que ambos adoravam filmes velhos do Jerry Lewis, para surpresa dele, que a achava muito nova para conhecer o comediante.
Ela perguntou quantos anos ele tinha, e ele fez ela adivinhar. Ela errou três vezes antes de chegar na idade certa, e ele ficou feliz.
E de repente o silêncio ficou incômodo.
Embaraçoso.
Nenhum dos dois sabia bem o porquê, mas o carro começou a parecer beeem pequeno.
Beca sugeriu que eles esticassem as pernas um pouco; já tinha escurecido, a rua estava vazia, quase sem alunos circulando em frente à universidade. Emil reclamou de fome pela milésima vez, ela sorriu e disse que eles podiam dar uma volta para procurar algum lugar por perto para comprar alguma coisa.
A cabeça de ambos estava longe, por isso ela não percebeu quando o moleque se aproximou dos dois.
- Tem trocado, tia? – perguntou o garoto, que não deveria ter nem 12 anos. Não estava sujo, nem descalço. Mas também não tinha uma boa cara.
Emil parou surpreso. Ele não tinha entendido o que o moleque falara, e esperou, olhando para ela, achando que talvez ele estivesse pedindo informação. Estranhou a expressão dela ficar tão tensa, afinal de contas, na cabeça dele a figura de um menino tinha o apelo zero de uma ameaça.
Diferente dela, carioca, inúmeras vezes assaltadas e com paúra de meninos de rua. Ela tinha sido realmente caridosa com esses meninos no passado. Bem no passado, antes de ter o celular roubado três vezes.
- Hoje não – ela disse rápido, e começou a puxar Emil pela manga da camisa, o que era engraçado, uma vez que ele era uma rocha perto dela, e a olhava totalmente alienado da situação.
“Ótimo! Isso sim é um clichê! O cara vem ao Rio, e é assaltado no dia seguinte”, ela continuava puxando o bounty hunter e apressando o passo, sentindo uma pontada de irritação com a situação.
Aí o rosto do menino se fechou, ele aproximou mais dos dois e falou baixo:
- Aí. Perdeu, perdeu. Passa o celular e a carteira – e uma das mãos foi para dentro do bolso ameaçadoramente.
Emil olhava do moleque para Beca e de volta pro moleque, como se estivesse assistindo a uma partida de tênis. Sem entender nada. Ela viu a confusão dele, e começou a abrir a própria bolsa enquanto avisava:
- Assalto.
Ele continuava confuso. Assalto? Como assim, assalto? Esse menino?, se indagou.
Ele segurou a mão dela, impedindo que ela tirasse de dentro da bolsa.
- Como assim, assalto?
- Estamos sendo assaltados – ela explicou o óbvio apontando com o queixo o pivete, com medo de estar demorando demais. Nessas horas é bom cooperar e...
Ele interrompeu seu pensamento.
- Por esse menino? – continuou Emil inocente.
- Não, pelo Papa! Claro que por esse menino! Você está vendo mais alguém aqui???
O meliantezinho começou a ficar inquieto.
- ‘Que que vocês estão falando em inglês aí? Cala a boca aê, tia. Passa logo o celular, ‘bora, ‘bora!
Emil ignorava solenemente o pequeno.
- Ele está armado? – ele perguntou para Beca, olhando ao mesmo tempo o pivete, medindo-o de cima abaixo. Ele era quase dois palmos mais alto que o assaltante.
Ela achou a pergunta completamente estapafúrdia, e teve certeza que os dois iam acabar mortos, se esse gringo maluco não calasse a boca e deixasse que ela cuidasse da situação.
- Eu não sei! Deve estar! – ela falou alto, tentando se livrar da mão dele.
Emil, soltou-a. Deu um passo na direção do menino, com seu pior olhar. Ela tinha visto essa cara no dia anterior, e se encolheu também. O pivete ficou surpreso e confuso, e por um momento se tocou do tamanho do americano.
Deu uma tropeçada para trás, e tirou a mão do bolso. Emil desfez a carranca e deu uma risada, virando de costas pro assaltante mirim, e passando o braço em volta dos ombros de uma Rebeca completamente aturdida. E começou a andar, como se nada tivesse acontecido.
- Ele não tem uma arma – ele falou para ela, como se isso explicasse tudo.
Os dois, Beca e o moleque estavam completamente surpresos. Mas o torpor do menino se desfez antes do dela. Ele começou a xingar todo o tipo de coisa, na direção do casal. Mas não teve coragem de se aproximar mais. Os dois continuaram andando.
E aí, veio o som de uma cusparada. Que acabou atingindo o cabelo dela.
Tudo foi muito rápido; ela nem teve tempo de ter nojo e pensar no escarro na nuca, e Emil já estava ao lado do bandidinho, segurando-o pela gola da blusa. E levantando-o do chão alguns centímetros.
Era até engraçado de ver. O moleque berrava, e esperneava feito uma aranha pendurada, e Emil gritava em inglês com ele, puto da vida. Um sem entender o outro.
Ela acalmou-o, mandando-o soltar o menino, mas ele insistia em chamar a polícia.
- Vai por mim; não vai dar em nada. Vamos. Tudo bem, ninguém se machucou.
Emil não afrouxava a puxada.
- Mas ele cuspiu no seu cabelo – rosnou, furioso.
- Tá tudo bem... sério. Vamos, a gente já perdeu tempo demais. Você já deu um bom susto nele – ela apaziguou.
De fato, o pivete estava de olhos arregalados, olhando para Emil como se visse o capeta.
- Vamos... esse não assalta mais ninguém por um bom tempo... – ela insistiu.
Ele largou a blusa, meio arremessando o bandido para frente, que caiu feito um gato, já correndo desvairadamente para longe.
Ele foi na direção dela, e virou-a, para olhar o estrago. Ela agora estava se divertindo com a atitude do americano. Mas ficou embaraçada quando ele limpou cuidadosamente seu cabelo com a barra da própria camisa. E demorou um tempo que pareceu a ela enorme, se assegurando de que tinha tirado tudo.
Ele continuava surpreendendo-a.
***