Capítulo 9
Depois de meia hora prestando atenção ao que acontecia dentro do apartamento, e tomando um susto aqui e outro ali (como quando as duas senhoras saíram do elevador e o fizeram dar um pulo), ele finalmente ouvia movimentação de pés lá dentro.
Eles tinham se levantado. Será que o outro iria embora agora?
Começou a ir em direção à escada, para ficar fora do campo de visão.
Por trás da porta da escada, ele ouvia o outro supostamente se despedir. Ficou tentado a seguí-lo quando ele saísse do prédio. Mas, pra que arriscar? Beca já estava de se encarregando de conseguir passe livre nas reuniões; não precisava o risco de ser pego e espantar o maluco.
Do jeito que Beca se referia ao ex, ele mesmo já começava a pensar na pessoa como “o maluco”.
O barulho do elevador avisou-o que o sujeito já tinha descido.
Mas ele ficou na dúvida: tocar a campainha e ir conversar direto com ele, ou voltar pro hotel?
Não. Se ele tocasse em sua porta, ela saberia que ele tinha ficado ali espreitando o tempo todo. Perguntaria o porquê. E ele não saberia dizer.
Resignadamente apertou o botão do elevador, e começou o caminho de volta pro hotel.
***
Um vento frio varreu toda a sala, que estava na penumbra.
As chamas das velas chegaram a tremeluzir, e ela apertou os lábios em desagrado. Aquilo não era bom. Não era um bom sinal, de forma alguma!
A brisa percorreu seu corpo e levantou os pelos dos braços e nuca.
E ela sentiu a própria voz, que entoava o ritual, falhara levemente.
Nada mais se mexia à sua frente. O cálice com água, e o arranjo montado em seu pequeno altar permaneciam inalterados. Ea tinha sentido necessidade de um ritual de purificação, assim que o ex deixara o apartamento. Um “spell” de proteção também viria a calhar.
Mas ela tinha esperado a noite se adiantar.
Talvez o desconforto fosse só em sua cabeça. Ela sabia que existia uma chance de estar um pouco enferrujada, já que não praticava absolutamente nada há meses. Mas mesmo assim a brisa lhe pareceu um mau agouro.
Até porque não havia nenhuma janela aberta.
***
Em outro lugar da cidade, naquela mesma hora, outro ritual também tomava curso.
Mas não era um ritual de proteção. Nem de limpeza.
E seus participantes tinham escolhido esse armazém abandonado não por privacidade. Mas por medo de serem identificados.
De dentro do local, e pro frio da noite, ouvia-se o lamúrio e o grito dos animais.
***
"Bem-vindo ao Rio de Janeiro!"
A placa parecia deslocada, no meio da confusão da rua e da chuva que caía.
Já tinham se passado três dias desde o encontro dela com o ex, e a próxima reunião do "coven" dele seria daqui a mais dois dias.
Pra ela, não fazia diferença, mas pra Emil, esse era um tempo muito longo. Ele normalmente aproveitava seus tempo ocioso de campana em lugares diferentes pra conhecer as cidades, jantar em lugares novos, assistir a jogos de basquete e coisas assim.
Mas isso nos Estados Unidos. Aqui ele se sentia meio perdido. Deslocado.
Como a placa de boas vindas no meio da chuvarada.
Ele tinha sugerido sutilmente a ela que talvez ela pudesse mostrar a cidade a ele, dar guarida, sabe, durante esse tempo ocioso. Ela comprou a ideia imediatamente. Seu trabalho era muito flexível. Sem trocadilhos.
E ela gostava de bancar a cicerone; sempre fazia isso pros poucos parentes que vinham de outros estados visitá-la. Os poucos que ainda falavam com ela, claro.
E, mais do que tudo, ela estava intrigada com ele. Tinha se animado com a perspectiva do trabalho dele no Brasil não terminar tão rapidamente.
Eles resolveram sair da calçada inundada, e entrar no primeiro lugar disponível. Eles tinham passado a manhã andando pelo centro do Rio. E agora estavam completamete enxarcados.
- Você parece um cachorro molhado - ela disse, em inglês, como sempre que falava com ele.
Ele riu, se sacudindo todo, como um cachorro mesmo, e espirrando água na entrada do Café e nela, que ainda pingava.
- A expressão "cachorro molhado" é a mesma que vocês usam em português? - ele sempre se interessava pela língua, tão incompreensível pra ele. Diferente da maioria dos americanos, que falava o inglês e olhe lá.
Ela achava graça nas perguntas dele.
- Na verdade, em português eu diria algo como "pinto molhado" - ela falou zombando dele com os olhos, enquanto os dois sentavam no pequeno lugar.
Ele pareceu confuso, como se em dúvida se ela estava falando sério ou não.
- Pinto? Há muitos pintos por aqui? E o que é que tem a ver os pintos com estar molhado? Eles se sacodem como cachorros, ou ficam com aquele horrível cheiro...? - ele parecia seriamente intrigado; uma pequena ruga de expressão marcando entre suas sobrancelhas.
Ela ría de dobrar a barriga.
- Que foi? - ele perguntou sério - Eu não "peguei" essa dos pintos.
Ela enxugou o canto de um dos olhos.
- Bom, você tem razão, sabe? Mas é só uma expressão. Não sei o que tem a ver. Acho que é porque pintinhos molhados ficam desmilinguidos e engraçados.
Ele abriu o cardápio resmungando "língua esquisita".
Mas na verdade ele achava a língua fascinante - só não ia contar pra ela! Quando ela falava, o português parecia uma língua melódica, suave, até mesmo sensual...
Sacudiu a cabeça e voltou a atenção pro cardápio de cafés. Ele andava divagando muito.
***