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Capítulo 8
Os dois ficaram parados na porta do apartamento, estudando-se. O inferno, pensou Beca, é que ainda existia essa energia forte entre os dois. Dario dava um meio sorriso enquanto a estudava de cima abaixo. E um arrepio percorria o corpo dela – repulsa e atração, muito confuso para sentir junto!
Ele esticou o braço e se adiantou para beijá-la. Ela forçou um sorriso, e desviou o rosto a tempo do beijo ir parar na bochecha. Ele entrou como se estivesse em casa. Já estivera tantas vezes no apartamento, afinal. Gato estava parado perto de uma cadeira, e quando ele se aproximou, deu um chiado alto e fugiu correndo para a cozinha. E ainda diziam que os animais não sabem das coisas.
- Esse seu gato vira-latas não mudou nada. Quando vai ensiná-lo a ser mais amigável? – apesar da crítica, seu clima era ameno, como que testando a velha intimidade.
- Você sabe, ele praticamente só tem essa reação com você... por que será? – ela não resistiu a responder, mas mordendo a língua logo em seguida. Não fazia sentido se indispor com ele.
- Ciúmes de uma dona tão linda – falou sorrindo um sorriso perigoso e galanteador, jogando-se no sofá.
Beca fechou a porta com o estômago revirando de nervoso.
***
Assim que a porta do apartamento foi fechada, Emil saiu de dentro do vão da escada. Ele tinha ouvido a chegado do outro, e aguardara o fechar da porta para poder se aproximar sem ser visto. Agora praticamente colava o ouvido na porta, atento para a conversa dos dois, e ao mesmo tempo ao corredor, para o caso de um vizinho aparecer.
Não queria ser pego nessa posição ridícula, mas se sentia curiosamente desconfortável em deixar a mulher sozinha com o bruxo.
***
O clima afinal ficou mais relaxado. Pessoas que não se vêem há muito tempo sempre tem muito a contar. Ele falou das aulas que estava preparando, contou uns dois casos engraçados de alunas apaixonadas (o que ela sabia que era comum), falou de forma divertida sobre outros acontecimentos, e ela lembrou porque tinha ficado tanto tempo com ele – ele era divertido e articulado. Uma pessoa que atraía a atenção dos outros com seu carisma e papo brilhante. Bom, pelo menos até você descobrir sua veia sociopata.
Beca também falou sobre as aulas, sobre a senhora que teve um aneurisma no meio da aula, e que ela teve de socorrer, e serviu chá gelado aos dois. Quando estava trazendo os aparadores, ouviu ele dizer suavemente às suas costas.
- Senti sua falta em Beltane esse ano...
De novo a sensação esquisita no estômago a fez dar uma meia parada. Agora o desconforto tinha outra fonte. Involuntariamente ela lembrou do último Beltane que tinham celebrado juntos. E COMO tinham celebrado. Beltane era o sabá de comemoração da vinda da primavera, o sabá da fertilidade.
Ela resolveu ignorar as fortes lembranças sexuais e continuar a conversa normalmente. Entregou um aparador a ele, e sentou-se de novo. Mas não conseguiu evitar transpirar um pouco na nuca.
- Praticamente não fiz nada esse ano; só uma coisinha aqui e ali, e tomei um vinho sozinha – na verdade não fizera quase NADA, pois andava realmente desiludida dos rituais depois do relacionamento catastrófico. Mas ele não precisava saber.
- Tsc, tsc – ele balançou a cabeça condescendente, e tomando um gole de chá – Não é o jeito certo, e você sabe.
Ela aproveitou para encaixar o golpe.
- Bem, é verdade. Por isso estava pensando em voltar às reuniões do grupo... – disse dissimulando pouco interesse – Vai ser bom sair com o pessoal de novo...
Dario reclinou para trás no sofá, franzindo as sobrancelhas. Diabo, seu instinto era algo perfeito, pensou ela.
Embora ele não estivesse desconfiando de nada, ainda assim alguma coisa soava estranha. Sua intenção era voltar com ela. E trazê-la para o grupo de novo, afinal Beca era muito talentosa. Mas achava que ela faria exigências, que teria de convencê-la... estava fácil demais.
Ele continuava a não falar nada, olhando-a com intensidade. Aquela tática que os tiras usam para fazerem as pessoas falar. Pelo menos nos filmes era assim. Chegou mais perto dela, o corpo deslizando entre as almofadas, o olhar preso no dela. Os olhos muito claros querendo ver dentro dela.
Ela não desviou, e deixou ele se aproximar. Se vacilasse, ele perceberia. Não saberia o quê, mas perceberia alguma coisa estranha.
***
Do lado de fora da porta, Emil estava aborrecido. Ele não tinha lembrado que não entenderia patavina da conversa – já tinha acostumado a falar com Beca em inglês, e não lhe ocorreu que ela falaria em sua própria língua com o outro. Ele pegava uma palavra aqui e ali, e tentava puxar algum espanhol pela memória, mas desistiu.
Já fazia uns dois minutos que os dois tinham se calado. E o silêncio lá dentro o estava deixando meio nervoso. O que será que estava acontecendo?
Começou a andar de um lado a outro, e decidiu que se ninguém falasse nada logo, entraria.
***
- Então... eu e você... juntos de novo? Fácil assim, linda? – ele respirou quase em cima da boca dela. O hálito não desagradável, mas quente, muito quente, quase incomodando.
Ela virou de leve o rosto, e lambeu os lábios. Também tinha seus truquezinhos, rá!
Apoiou uma das mãos no peito dele, pra freá-lo.
- Calma lá. Eu falei em voltar às reuniões. Por enquanto, só isso.
Ele engoliu. Essa era a Beca que ele conhecia. Cederia um pouco agora, um pouco depois, e na verdade tudo deveria ser um prelúdio para voltar. Em sua presunção ele achou que ela não quisesse admitir a volta tão rápido para não ferir o próprio orgulho. Mas como ela podia não querer voltar?, pensou relaxando a postura e sorrindo.
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